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Clube de Engenharia de Goiás. Uma idéia e concepção de abnegados

               A criação do Clube de Engenharia de Goiás surgiu de uma rodada de chope numa churrascaria de Goiânia durante um jantar comemorativo ao Dia do Engenheiro, realizado entre os poucos engenheiros existentes à época na cidade. Um dos presentes nesse jantar deu a idéia de que ele fosse criado nos moldes do Clube de Engenharia do Rio de Janeiro.
               O objetivo da criação foi a necessidade de união da classe, porque ela não tinha praticamente participação em nada. Era uma classe em que vivia cada um para si. A criação oficial do Clube de Engenharia se deu em 10 de janeiro de 1951 e, embora devidamente registrada, por algum tempo ficou existindo apenas no papel e na cabeça desses primeiros engenheiros da cidade que participaram da reunião de criação.
              Em 1964, o Clube de Engenharia praticamente se dissolveu durante Assembléia Geral convocada pelo então presidente Raul Naves Filó para tomada de posição ao golpe militar de 64. Nessa reunião foi posta à vista as divergências e acusações existentes entre todos, muitas por razões políticas, outras por ciúmes e intrigas, coisas que nada tinham a ver com o Clube, mas a Agremiação se desgastou de tal forma que quase sumiu.
            Os seus pertences e bens, como geladeira, máquina de escrever, copiadora a álcool, cadeiras, mesas, estantes, livros e até a sede provisória tinham desaparecido. A sede, provisória foi instalada numa sala do Colégio Liceu de Goiânia. Mas em 1968, legalmente não existia mais o Clube. Não tinha relação de sócios, ninguém sabia de nada, todos tinham-se afastado dele. Então foi feito, na gestão do presidente Nilson Paulo de Siqueira, um movimento de soerguer a Agremiação, com o mesmo princípio de antes.
               Primeiramente, alugou-se uma sala na Avenida Goiás, onde o Clube funcionou nessa gestão. Depois foram atrás de dinheiro que o tesoureiro havia depositado no Banco Mercantil de São Paulo. O montante, que ainda estava lá, em valores corrigidos, utilizaram no aluguel de uma sede e compra de móveis. Também receberam doações da Casa Iracema e outras lojas de materiais de construção. E assim conseguiram soerguer a Entidade.
               Uma das coisas mais importantes, entre muitas que foram feitas pelo
Clube de Engenharia, foi a criação da Escola de Engenharia Brasil Central que, em 1961, no governo de Juscelino Kubitschek, foi incorporada pela Universidade Federal de Goiás, sendo hoje denominada Escola de Engenharia da UFG. Na época, os professores da escola, verdadeiros dedicados e idealistas, davam aula sem ganhar nada. Um fato marcante foi também a criação do CREA. Uma idéia do expresidente do Clube, Nilson Siqueira, assessorado e com o apoio da comunidade, porque entendia-se que com o surgimento de Goiânia já se fazia necessário a existência do Conselho para a fiscalização e aprovação das obras que estavam sendo construídas na Capital. Inicialmente, o Conselho Federal, então no Rio de Janeiro, aprovou que o CREA de Goiânia se desligasse de Belo Horizonte e ficasse vinculado ao de Brasília. Isso exigiu que o então presidente do Clube, Nilson Siqueira, como representante de Goiás no CREA de Brasília, estivesse por lá toda semana participando de reuniões. Foi nesse contato com colegas candangos que sentiu o apoio deles à criação do Conselho regional. Ressalte-se nesse processo a colaboração intensa de José Inácio, então presidente do CREA de Brasília. Além de no Confea opinar favoravelmente a favor, no processo de criação ele deu um parecer muito importante sobre as necessidades de Goiânia ter um Conselho. Como ele, outros anônimos também despacharam favoráveis à criação da entidade em Goiás.
             O processo de criação do CREA se deu com o Clube de Engenharia, representado por Nilson Siqueira, indo ao Confea fazer o registro da criação do Conselho goiano. Com a aprovação no Conselho de Brasília, ficou criado aqui, então, o CREA da 15a Região. Em homenagem à Teldo Emerich, que fora secretário quando o CREA era submisso à Belo Horizonte e depois à Brasília, este foi escolhido o primeiro presidente. Outro fato relevante acontecido, por exemplo, foi a perda de áreas doadas para ser ser sede do Clube, por nada ter sido feito nelas durante dois anos. Uma área, localizada no Setor Oeste, pertencente a Oton Nascimento, onde está hoje uma unidade do supermercado Marcos. A outra, onde funciona hoje a estação meteorológica, no Setor Aeroporto, doada pela União.
             As primeiras atividades e eventos, inicialmente com cerca de 300 associados, aconteciam no mês de dezembro, na Semana do Engenheiro. Eram festividades de congraçamento entre engenheiros e arquitetos, visitas técnicas à Cachoeira Dourada e a outras grandes obras de então. Também como atividade participativa, o Clube conduziu o processo de criação do Inocoop, passou a ter um representante no Confea e tornou-se uma espécie de primo-irmão do Clube de Engenharia do Rio, Instituto de Engenharia de São Paulo e outras entidades nacionais de peso. Tudo isso favoreceu o início da sua consolidação como entidade forte.
            O sócio nº 1 do Clube é o ex-presidente Nilson Siqueira. Ele tem esse título porque, naquele momento estava tudo desorganizado que o Clube não sabia nem quem eram seus sócios. Então Nilson passou a percorrer as instituições recolhendo nomes de engenheiros que quisessem ser sócios. Coincidentemente colocou na lista o número um e assinou na frente, tornando-se assim o primeiro sócio da Agremiação.
            Sucedeu Nilson Siqueira na presidência do Clube Enilson Magalhães que, com um ano de mandato, sofreu um assalto sendo assassinado. Com a ida do vic-presidente Decleir para Santa Catarina, como presidente do Conselho Deliberativo assumiu a presidência Eval Soares do Santos. Ele presidiu numa situação muito difícil porque estávamos saindo de um processo revolucionário no País em que houve a participação de alguns colegas de forma ideológica e política, que muito prejudicou o Clube. Em sua história, o Clube conviveu com muito problemas políticos. O engenheiro Marcelo da Cunha Morais, por exemplo, grande colaborador que o Clube teve, em 1964 foi preso por 10 dias, simplesmente pelo seu idealismo pela Escola de Engenharia. Administrativamente não estava nada bem. Não oferecia boas condições para sua administração em função da precária situação financeira e, em razão disso, ninguém queria colaborar porque achava que o Clube não era viável.
            Nesta época o Clube funcionava em sede alugada numa sala do Edifício Dom João VI, na Avenida Goiás. Daí Eval levou-o para a Rua 84 esquina com a 104, no Setor Sul, também em imóvel alugado. Foi lá que reuniu o pessoal para assistir a Copa do Mundo de 70. Mas o Clube continuava não tendo condições de sobreviver condignamente. Então Eval levou a sede para a casa dele, na Rua 126, no Setor Sul, onde ficou um ano sem pagar aluguel. Diante desse situação, Eval procurou o governador Otávio Lage solicitando que cedesse uma área para a construção da nova sede. O governador pediu a Jedir Lamartine, presidente do então Departamento de Terrenos Urbanos (DTU) para que apresentasse algumas áreas para serem escolhidas. A área que Eval quería, a da Avenida T-8, no Setor Bueno, já havia sido prometida à Caixa Econômica Federal para ser o Clube dos Economiários. A área da Avenida Paranaiba com a Tocantins, no Centro, onde está instalada a Estação Meteorológica, não foi possível porque o Ministério da Agricultura bateu o pé e não quis ceder. Sobrou, então, aquela área verde (onde hoje está o Clube) que Nilson Siqueira não gostou por ser de preservação ambiental, mas não tinha outra solução, teve que ser aceita. O local era um brejo onde o pessoal caçava rã, não seria nada fácil fazer um Clube ali. Mas como não tínha outra opção, fechou-se a área, fezse a drenagem do terreno, providenciou-se uma limpeza geral e o local ficou até bonito, a ponto de despertar o interesse de muita gente.
             A doação feita pelo Governador Otávio Lage aconteceu em 1971, por intermédio de uma mensagem apresentada à Assembléia Legislativa do Estado pelo deputado José Carneiro Vaz, com cláusula de caducidade de dois anos. A mensagem passou sem problemas, sendo aprovada por unanimidade. Mas não foi fácil fazer o registro. Ao verificar o preço do registro, Eval constatou que o Clube não daria conta de pagar, era caro demais. Ele voltou ao governador Otávio Lage e disse a ele que teria que considerar a Agremiação de utilidade pública para não pagar essa transmissão. Otávio até brincou com Eval dizendo que a categoria era pobre, no que Eval retrucou dizendo que estava pobre mesmo e que o governador deveria era melhorar o salário que pagava aos engenheiros do Estado. Ele riu e mandou outra mensagem à Assembléia transformando o Clube de Engenharia em utilidade pública, que é até hoje, graças a dificuldade de pagar essa transmissão.
             Como a cláusula da caducidade exigia da administração fazer alguma
coisa na área num prazo de dois anos, senão a perdería, Eval apelou para todas as firmas de engenharia, órgãos públicos e pessoas amigas. Dentre muitos que ajudaram, estavam Fuad Rassi; Marcelo da Cunha Moraes, nas fundações; a Suplan, que fez uma quadra de esportes e; com outras tantas doações que recebemos, fizemos no Clube o primeiro módulo, por intermédio de um projeto do Raul Naves Filó.
             Começaram a construção do primeiro módulo por intermédio da arrecadação de várias rifas, doações de materiais usados e chegando a ponto de deixar os primeiros pilares já concretados. Com a madeira doada de uma firma fez-se um telhado com telhas velhas e levaram para lá a geladeira velha, a máquina de escrever antiga e outros poucos bens que o Clube tínha na época, além de uma sinuquinha de criança, que era o divertimento. Pediu-se à Prefeitura que colocasse na porta o número 500, definindo que ali agora seria a sede do Clube de Engenharia, resolvendo assim o problema da cláusula de caducidade.
             Após cumprir um mandato tampão, em razão da morte de Enilson Magalhães, Eval foi eleito para presidir o Clube por mais dois anos, mais ou menos até 1973. A data não é muito precisa, porque só a partir dessa época que começou-se a fazer atas, perdeu-se muita coisa no processo revolucionário. Depois, o sucedeu na presidência Hélio Pinto. Nesse período foi criada a Associação Profissional dos Engenheiros do Estado de Goiás, hoje Sindicato dos Engenheiros do Estado de Goiás. Participaram da criação da entidade o Clube e a Associação dos Engenheiros Agrônomos, a Aeago, então presidida por Juscelino Borges Carneiro. A Associação, criada com o objetivo de funcionar dentro de dois anos para se transformar em Sindicato, teve como primeiro presidente Wanderlei de Oliveira Melo.
            Segundo Eval Soares o mais relevante em sua gestão foi uma maior preocupação com a engenharia. Apesar de ter sido uma época muita turbulenta em termos de ideologia, política, o Clube sempre teve compromisso com o setor. Naquela época, por exemplo, o Clube realizou o Seminário Goiano de Pontes e Grandes Estruturas, que infelizmente deixou de ser realizado. Com todas as dificuldades, também foi feito um seminário que era considerado pelas outras entidades do setor um marco no Centro-Oeste. Trouxe-se para cá grande nomes da engenharia nacional para discutir com a engenharia de estrutura, elevando muito o nome da Entidade.
              A favor do setor, o Clube fazia de tudo: defendia o engenheiro; coordenava e controlava ações de engenharia; ajudava as empreiteiras, tanto é que o presidente participou como diretor administrativo da Associação Goiana de Empreiteiros, a AGE, na gestão de Nestor Cordeiro
do Valle, colaborando para colocar a entidade num ponto de maior respeito perante a sociedade.
             Para Eval todos esses fatos foram marcantes, cruciais. Ele não gosta de falar disso mas o Clube, anteriormente à sua gestão, participou de um processo de discussão olítica-ideológica que complicou muito a sua existência. Alguns colegas entraram em choque uns com os outros por questões ideológicas e foi muito difícil sair disso. Foi preciso fazer até pedido de desculpas e de dar satisfações de não ter participado daquilo, o Clube foi levado sem querer a uma situação que ficou incontrolável depois. Como fato relevante na época, o Clube participou da preservação do Bosque dos Buritis, quando quiseram fazer ali uma Praça da Cultura. Ele estava junto de outros que lutavam contra a depredação da área, apesar de sem querer também Ter invadido uma área de preservação ambiental. Todos os problemas que afetam a cidade e o goianiense sempre tiveram a participação do Clube. Inclusive agora, no processo de revitalização do Centro de Goiânia, tem-se grandes profissionais participando. Basicamente, as principais atividades e eventos nessa época foram a promoção do Seminário de Pontes e Grandes Estruturas e a consolidação do Clube, uma luta grande travada para construir. Também a participação com outras entidades em defesa da política regional de engenharia, bem como ainda uma luta junto aos órgãos de administração pela valorização da engenharia e do engenheiro. Foi uma luta grande porque, na época a classe estava muito desprestigiada em termos salariais e o Clube conseguiu junto ao governador Leonino Caiado a equivalência salarial, resolvendo assim o problema salarial dos engenheiros do Estado. O Clube foi um dos responsáveis por isso também.
            Presidiu o Clube no período de 1971 a 1974, o engenheiro Hélio Rodrigues Pinto, compreendendo dois mandatos seguidos. Hélio lembra que naquela época a situação era tão crítica que ele foi obrigado a aceitar um segundo mandato porque ninguém se habilitou a ser candidato. De acordo com Pinto, não havia interesse em administrar a agremiação porque o Clube só tinha a exigir das pessoas e nada a oferecer. Só tinha um terreno e mais nada. As atividades culturais e de seminários eram promovidos apenas com espirito de pioneirismo de determinados colegas. Como era uma situação em que o sócio não pagava nada, Hélio tentou fazer uma nova ficha de filiação com o objetivo de se organizar para que o Clube tivesse arrecadação. Mas, de certo modo, não obteve sucesso porque a agremiação não tinha nada a oferecer, só tínha o terreno. Diante desse quadro, procurou solução fazendo outras gestões junto ao Governo do Estado e às firmas fornecedoras de materiais, e recorreu também às construtoras. Foi por aí que conseguiu iniciar a construção da Sede, deixando parte dela já coberta e grande número de materiais doados. Seu sucessor na presidência foi Leonardo Camilo Lobo. Posteriormente veio a presidir a entidade o colega Luiz Soares de Queiroz, que foi quem consolidou a construção do Clube. 
            Hélio construiu uma quadra de esportes, que foi uma das primeiras obras feitas no Clube e também fizemos a drenagem de toda a área da Sede. Ele considera relevante também na sua gestão o fato de que, juntamente com seu antecessor, Eval Soares do Santos, conseguiu a posse definitiva da área que hoje é a Sede do Clube.
         Apesar de não ter uma Sede estruturada, as atividades do Clube naquele tempo eram bastante significativas. Diversos seminários foram promovidos, além de vários eventos culturais e científicos no sentido de reciclar os colegas e fazer um congraçamento de todos, promovendo o espírito de coleguismo para unir a classe e possibilitar formar uma associação que viesse a ter hoje uma significativa presença na vida do Estado.
            Normalmente as atividades e eventos eram realizados no auditório da Federação das Indústrias e na Universidade Federal de Goiás. Os eventos tais como os Seminários de Pontes e Grandes Estruturas, tradicionais no Clube; e outras atividades cientificas eram feitas com o objetivo de promover o desenvolvimento da parte técnica da engenharia goiana. Essas atividades tinham muita aceitação, inclusive com participação significativa de associados na apresentação de trabalhos. Grandes nomes da engenharia nacional, como o professor Gerson da Rocha, participavam desses seminários.
            Considerado o presidente que consolidou a construção do Clube de Engenharia, o engenheiro civil Luiz Soares de Queiroz presidiu o Clube de 1979 a 1984, sucedendo Leonardo Camilo Lobo, e sendo sucedido por Mário de Carvalho. Morando perto da Sede, Luiz Queiroz observou que nela tinha obra iniciada, um galpão, aparentemente abandonado e completamente sem nenhuma atividade. Ficou sabendo que o presidente era Leonardo Lobo, mas quem tomava as rédeas de alguma atividade, por exemplo, a comemoração do Dia do Engenheiro, era Cláudio de Aquino, um entusiasta do Clube, com quem começou a apurar detalhes sobre a situação ali existente.
              Por intermédio do Cláudio, ele ficou sabendo que o Clube precisava de ajuda então se propôs a trabalhar por essa causa. Abrindo o jogo com Cláudio, Luiz falou que queria ser candidato a presidente da Agremiação, aliás que também era uma pretensão dele. Concordando em serem candidatos, o presidente providenciou um Edital de Convocação para a eleição, num chamamento a todo engenheiro que tinha o registro profissional no Crea, já que o Clube não dispunha de quadro associativo. Foi uma campanha eleitoral limpa, tranqüila, bastante acirrada, com até aqueles ´disse-que-disse´ comuns em qualquer eleição. Enquanto Luiz era um candidato novo, com poucos anos de formado; Cláudio era pessoa super bem relacionada na cidade, a eleição para ele aparentemente seria fácil. Só que houve uma reação dentro do processo eleitoral por Luiz ser um nome novo, uma pessoa se dispondo a trabalhar. Foi então que ele ganhou a eleição, aliás com uma diferença grande, com os votos contados a luz de vela, já que não existia luz no Clube.
             Passada a eleição, no dia seguinte Luiz chegou ao Clube para tomar pé da situação. Encontrou um quadro desanimador. Só tinha uma sala cimentada, alguns móveis e armários velhos, telefone desligado. Aconselhado pela esposa Violeta a não desanimar, uma vez que tinha ganho a eleição, começou a trabalhar. Trouxe um aparelho de telefone da empresa, pediu a Celg para religar a energia e, para saldar as dívidas do Clube, contou com a ajuda de colegas e amigos da engenharia. Mas como fazer algo sem dinheiro? E aonde conseguir o dinheiro? Então Leonardo Lobo lhe deu a notícia de que tinha conseguido do governador uma verba de doação ao Clube no valor hoje equivalente a uns 10 mil reais. Foi atrás desse dinheiro mas devido à burocracia ele demorou a sair e só foi aproveitado mais tarde sendo de grande ajuda.
             Vislumbrou-se também naquele tempo fazer dinheiro através da reconstituição do Estatuto do Clube, tarefa que levou três meses para ser feita devido as dificuldades existentes para elaborar e registrar o documento em cartório. Nele previa-se a venda de títulos por intermédio da filiação de engenheiros ao quadro associativo do Clube. Lançou-se as vendas dos títulos nas repartições, órgãos públicos e empresas de engenharia com boa aceitação, mas muita gente não comprou, cansada de dar dinheiro ao Clube e não ver o retorno disso.
            Houve um processo que Luiz chama de mágico, onde fica aliado credibilidade e trabalho. A medida que começou a estar no Clube, dia e noite, e as pessoas a verem uma movimentação de serviços de roçagam, drenagem e outros, apareceu a credibilidade: o pessoal começou a associar-se ao Clube. Associando, houve o dinheiro e a construção de obras. Ocorreu assim um processo de confiança ao trabalho empreendido. Ao final de dois anos de mandato todas as metas físicas propostas no processo eleitoral estavam cumpridas. Foram mais obras físicas porque o momento obrigava a abandonar: a visão de Clube como entidade representativa da engenharia para se preocupar como Clube social. Todos os clubes e institutos de engenharia do país subsistem por intermédio da renda de locações de seus imóveis.
             Quando chegou ao fim desse mandato, Luiz não queria mais ficar na presidência do Clube porque as suas atividades profissionais estavam sendo sacrificadas. E depois, segundo ele, o Clube já estava consolidado, evidentemente que ainda existia muita coisa para se fazer mas qualquer outro presidente daria conta disso. Então correu atrás de alguém para substituí-lo e nada de aparecer quem se candidatasse. Como teve que ser candidato novamente, para formar a chapa foi outra dificuldade, não conseguia montar a equipe de trabalho. Luiz tinha entrado no meio do ano, numa eleição extratemporânea, porque o Clube estava desativado e já tinha passado a época de fazer nova eleição. O Estatuto definiu que a nova eleição seria no final do ano, valendo por dois anos, e aquele seu primeiro mandato teria a duração de dois anos e meio porque ele havia iniciado no meio do ano.
         Como estava no embalo de trabalho, Luiz prosseguiu com as obras físicas. Por intermédio de um carnê, angariou contribuição dos associados, construíu o Ginásio de Esportes e executou outras melhorias. O dinheiro para a execução das obras vinha também de intermediações de pessoas amigas do Clube. Nessa época, a Agremiação já contava com 300 associados, um número significativo para aquele tempo. Como atividade técnica nessa gestão foi realizado um seminário de Pontes e Estruturas porque já era uma tradição no Clube, mas mesmo assim não houve tanto interesse. Na verdade era um seminário direcionado para a área, e já havia outras atividades emergentes muito fortes como o de engenheira elétrica, rodoviária e outras que estavam surgindo, assim como também o plano rodoviário já estava em plena atividade. Para Luiz Queiroz foi marcante nesse segundo mandato o que chamou anteriormente de momento mágico: quando não precisou mais procurar as pessoas para comprar títulos, houve um processo de inversão, as pessoas faziam questão de vir ao Clube, trazer seus amigos para associarem-se, comprar títulos.
              Não era alçada da gestão de Luiz Queiroz olhar pela lei do salário mínimo do engenheiro, mas como muitos engenheiros ganhavam pouco, quando saiu o piso salarial de oito e meio salários mínimos do engenheiro, ele brigava por ela, até que o doutor Antônio, um advogado do Crea, lhe disse que tem leis que pegam e outras não, essa era uma que não pegava. Para fazê-la pegar, divulgou seu índice no jornal do Clube. Isso levou os profissionais a verem que existia uma lei de salário da categoria, por isso se movimentaram para que fosse aplicada.
              Goiânia viveu um momento critico, quando um profissional da engenharia manifestou que havia um problema sério na Alameda das Rosas e a imprensa procurou o Clube querendo uma opinião a respeito. Foi um momento constrangedor porque o profissional tinha falado algumas coisas de interesse mais pessoal do que profissional. Ele dizia que naquela região tinha uma tufa e os prédios ali estavam todos colocados em risco. As pessoas procuravam o Clube dizendo que o apartamento delas não valia mais nada, perderam o valor. Dentro desse processo, o Clube teve que despistar a imprensa porque não podía colocar um colega numa situação ruim. Foi difícil porque essa mesma pessoa que dizia estar aquele local em condições de risco, era responsável pela fundação de um prédio que está de pé até hoje.
              Quando o Clube tomou um aspecto recreativo, a sociedade passou a vê-lo como agremiação recreativa e não como entidade de representação social. Houve também uma eclosão de entidades de todo tipo e então, nesse processo, os presidentes seguintes continuaram com aquela visão de construção e muitos deles esqueceram do valor do Clube como entidade representativa. Agora, nos últimos anos esta se conseguindo fazer com que as pessoas entendam que no Clube a parte recreativa é apenas uma sustentação.
             Luiz Queiroz cita Cláudio de Aquino, seu opositor na primeira eleição, como um dos que mais o ajudou no Clube. Qualquer coisa que pedia, ele não pensava duas vezes em atender. Luiz salienta uma coisa importante dentro do Clube: as pessoas entenderem que os interesses do Clube estão acima de qualquer coisa, que o Clube é maior do que os interesses individuais e pessoais. Para Queiroz, seu sucessor deu continuidade ao trabalho. O Clube já estava com a parte física bem consolidada e foi dado uma organização no que diz respeito à administração. Porque era muita voltada para a obra, então ele adotou uma administração mais voltada para a parte econômica. Fez um bom trabalho também. Depois, logo em seguida a do Mário de Carvalho, assumiu João Vicente (Terra). Ele também fez um trabalho excelente.
                Conforme Luiz Queiroz, na época em que foi doada a área onde hoje está o Clube, a consciência ecológica era muito precária, hoje temos um grande patrimônio na mão que é o respeito à consciência ecológica. O Estado não teve a consciência ecológica de dar a área ao Clube e o Clube não teve a consciência ecológica de receber a área. Quando as coisas começaram a caminhar nesse aspecto, a prefeitura fez um código, a lei de Uso do Solo, que instituia que nas regiões nascentes, como onde está o Clube, limitaram-se o uso de construção e definia que deveria ser feito uma série de restrições às propriedades que estivessem nelas e nas beiradas dos córregos. Hoje o Clube respeita essa legislação, não foge a essa regra, ele respeita a lei do Uso do Solo, zelando pelo meio ambiente dentro das considerações estabelecidas na lei. 
            A história do Clube não pára por aqui. Os administradores que sucederam esses pioneiros e abnegados dirigentes também têm o mérito de, cada um em sua gestão e período, terem acrescentado melhoramentos ao patrimônio físico da agremiação, preservando e enriquecendo-o, como também aprofundando no trabalho de tornar o Clube de Engenharia a entidade com maior reputação e representatividade da engenharia em Goiás.

Escola de Engenharia, um legado do Clube de Engenharia

              No início da década de 50, Goiânia, embora ainda pequena, já experimentava um progresso extraordinário. Foi diante desse quadro que um grupo de sócios do Clube de Engenharia de Goiás idealizou e fundou a Escola de Engenharia do Brasil Central, hoje Escola de Engenharia da Universidade Federal de Goiás. Um desses idealizadores é o engenheiro civil e professor Orlando Ferreira de Castro.
             A Escola de Engenharia foi fundada pelo Clube de Engenharia de Goiás em 13 de setembro de 1952 e começou a funcionar em 1954 graças ao esforço grande dos vestibulandos da época. A primeira turma, da qual fazia parte o professor Orlando de Castro, prestou vestibular em 1954.e formou-se em 1959, mas a formatura mesmo ocorreu em abril de 1960 como parte das comemorações de inauguração de Brasília.
           Os idealizadores da Escola foram os sócios do Clube de Engenharia que, para tanto, desencadearam um movimento em 1958. Eles encontraram algumas dificuldades para obter do Ministério da Educação e Cultura (MEC) a autorização de funcionamento. Os, vestibulandos da época, para ajudálos, criaram então uma comissão, conhecida como Comissão dos 5, e foi graças a um intenso trabalho dessa turma que a Escola conseguiu a autorização de funcionamento.
           Os cincos membros que trabalharam juntos para conseguir a autorização de funcionamento da Escola foram: Azulino Ferreira do Amaral, Hélio Naves, Brás Ludovico de Almeida, Júlio Cesário de Souza e Orlando Ferreira Castro. Foram grandes as dificuldades que eles tiveram nessa missão. O pessoal que fundou a Escola então formulou o pedido de autorização de funcionamento mas não instruiu adequadamente o processo como exigia o Decreto número 421 de 8 de maio de 1938. Este fazia uma série de exigências e como os engenheiros não tinham muito tempo para se dedicar aos detalhes, então o MEC, em 1953, recusou in limine a autorização.
           Diante desse quadro a turma então estudou detalhadamente o decreto e recorreram, por sugestão do padre Lobo, na época diretor do Colégio Ateneu, ao advogado Benedito Odilon Rocha, que era o secretário da Faculdade de Filosofia de Goiás, que lhes deu toda a orientação necessária para conseguir o que queriam. Com isso conseguiram completar o processo que levaram ao Rio de Janeiro, onde foi aprovado no Conselho Federal Nacional de Educação em dezembro de 1953.
             Oficialmente, a autorização para funcionamento da Escola deu-se em 6 de janeiro de 1954, por intermédio do decreto assinado pelo então presidente da República Getúlio Vargas. A noticia foi passada via telegrama pelo general Caiado de Castro, comunicando que o presidente assinara o decreto autorizando o funcionamento do curso de Engenharia Civil da Escola de Engenharia do Brasil Central em Goiânia. E aqui a boa nova foi transmitida aos goianos pelo locutor da Rádio Clube, João Rosa, que fez um grande barulho em torno do feito alcançado.
              A Escola de Engenharia foi criada para funcionar com 40 vagas. Ao Vestibular compareceram 72 e foram aprovados 24. Isso na época foi considerado inédito em Goiânia porque era muito comum que 90 a 100% dos candidatos fossem aprovados. .Foi a primeira vez que aconteceu uma reprovação em massa num vestibular na cidade.
              É interessante lembrar que o Clube foi fundado mais ou menos nesta época exatamente para criar a Escola de Engenharia, objetivando com isso integrá-la à chamada Universidade do Brasil Central que o governador Coimbra Bueno havia instituído em 20 de outubro de 1948, através de uma lei que previa a instalação de escola de engenharia, de medicina, de odontologia e outras.
               A partir dessa época, os engenheiros de Goiânia entenderam que cabia a eles criar a Escola de Engenharia da Universidade do Brasil Central e começaram a trabalhar com esse objetivo. Mas o Decreto 421 exigia para tanto uma entidade mantenedora. Ocorreu então que os engenheiros se reuniram e fundaram o Clube de Engenharia, constituindo assim a entidade antenedora, conforme pedia o Decreto, criando a Fundação Escola de Engenharia do Brasil Central.
           Foi uma reunião do mais alto nível, presidida pelo governador do Estado, Pedro Ludovico Teixeira, e com as presenças dos presidentes da Assembléia Legislativa e do Tribunal, desembargadores, deputados, prefeito de Goiânia, dentre outros. Para a reunião, os organizadores prepararam o Estatuto e o levaram praticamente pronto, apenas sofrendo pequenas alterações. Como os artigos 22 e 23 do Estatuto declaram que já fica criada a Escola de Engenharia, ao aprovar o Estatuto aprovou-se, portanto, a criação da escola.
             Naquela época Goiânia, embora ainda pequena, experimentava um progresso extraordinário e não existia engenheiros e arquitetos suficientes para tocar o desenvolvimento da Capítal. Não existia, por exemplo, quem fizesse projetos das residências, então os desenhistas que vieram para ajudar na construção da cidade, entre eles Américo Vespuci, foram os que projetaram as primeiras casas.
               O trabalho desse profissionais era empírico e não podia continuar daquela forma. Eles não tinham criatividade para inovar, criar coisas diferentes, modernas, aquilo que a gente vê as escolas de engenharia e arquitetura embutirem na mentalidade dos profissionais, com sensibilidade artística, pesquisa por coisas novas. Eram mais ou menos rotineiros como se pode observar no Centro de Goiânia onde as casas são todas emelhantes.
                 Cada desenhista tinha o seu estilo, faziam, por exemplo, aqueles bangalôs que no Centro encontra muito. Então quando apareceu aqui um arquiteto diferente como João Holanda, que projetou a casa do dono do cinema, na Rua 5 esquina com Rua 8, onde hoje funciona um curso de inglês, aquilo foi um sucesso. Foi esse um dos motivos que levaram os engenheiros da época a criarem o Clube e a Escola de Engenharia. O inicio da Universidade Federal de Goiás partiu dos estudantes da Escola de Engenharia que, reunidos em 23 de abril de 1959 na sede da União Estadual dos Estudantes (UEE), localizada no segundo andar do número 86 da Avenida Anhanguera esquina com a Rua 9, onde hoje funciona uma sapataria, criaram a Frente Universitária Para o Ensino Federal. A entidade, presidida por Nilson Siqueira, promoveu um movimento pela criação da universidade goiana, que ninguém acreditava que saísse. Foi aí que começou o trabalho pela criação da Universidade Federal de Goiás.
            Depois que o ex-deputado Castro Costa apresentou o projeto criando a Universidade de Goiás, (Universidade Federal de Goiás) foram apresentados três projetos com esse nome. Em 31 de outubro de 1959 Juscelino Kubitschek encapou o projeto, graças ao trabalho que fizeram junto a ele, o professor Colemar Natal e Silva, que consideramos como fundador da Universidade, reuniu os diretores das escolas, em 30 ou 31 de outubro de 1959, e criou a Comissão Permanente Para Criação da Universidade do Brasil Central, aquela criada por Coimbra Bueno havia 11 anos.
            O então acadêmico de direito Sebastião Balduino de Souza, também teve importante participação na criação da universidade. Poucos enfrentaram o que ele enfrentou até levar o projeto do Castro Costa ao presidente da República, que era candidato a senador por Goiás. Diante desse quadro Juscelino resolveu então apoiar a idéia. Os diretores das escolas, sob o comando do professor Colemar, reuniram-se e deram impulso ao processo. Se não fosse o trabalho deles a universidade não teria saído. A criação da universidade foi então aprovada no Congresso Nacional em 14 de dezembro de 1960.
               Em 18 de dezembro de 1960 aconteceu aqui em Goiânia a solenidade de assinatura do decreto criando a Universidade Federal de Goiás, considerado como o segundo movimento em dimensão de público que já houve na Capital (o primeiro considerado é o das Diretas Já) deu-se na sacada do Palácio das Esmeraldas, com a Praça Cívica lotada de gente. Nesse dia, a lei número 3834-C criou a Universidade incorporando as cinco escolas em funcionamento em Goiânia: a Faculdade de Direito, a mais antiga delas, criada em 1898, a Faculdade de Farmácia, a Escola de Engenharia, e o Conservatório de Música, que tinha relutado mas depois integrou-se ao sistema, e a Faculdade de Medicina que tinha começado a funcionar exatamente em 1960, graças aos esforços do doutor Francisco Ludovico.
              A Universidade foi criada com o objetivo de integrá-las. A Faculdade de Direito era federalizada, graças a uma lei patrocinada pelo senador Alfredo Nasser. As outras eram mantidas por fundações. A lei exigia que para existirem, precisavam de uma mantenedora. Mas essas instituições não tinham condições de manter as escolas gratuitamente como se imaginava e queria.
               Nos primeiros anos de funcionamento da Escola de Engenharia houve uma troca muito grande de professores. Lecionar no curso de engenharia não era fácil, exigia uma preparação que punha a prova qualquer boa vontade. Eram profissionais de engenharia e arquitetura muitos ocupados com suas obrigações, não eram professores. Como davam aulas e não recebiam nada, por qualquer insatisfação, reclamação de alunos, abandonavam o curso. Ao longo da história da Escola 90% dos professores deixou de lecionar, houve época em que os próprios alunos tiveram que dar aulas.
               Inicialmente a Escola de Engenharia funcionou na Escola Técnica Federal (o primeiro vestibular foi realizado lá), depois descobriram uma lei que proibia o governo Federal de emprestar seus imóveis para instituições privadas. Então conseguiram com o governador do Estado que ela funcionasse no Colégio Liceu, mas lá não tinha condições, aí então dona Silvia Alexandra, diretora e dona do Jardim de Infância Betânia, que funcionava na Rua 14 quase esquina com a Araguaia, no Centro, emprestou uma sala de aula onde a Escola funcionou em seu primeiro ano. Em 1955 a Escola tinha duas turmas e somente uma sala, então o doutor Oton Nascimento, que era presidente da Celg e desfrutava de grande influência e prestígio junto aos políticos, conseguiu com o secretário de Viação e Obras Públicas, Jaime Câmara, que fosse construído um pavilhão com três salas no Liceu, para abrigar a Escola. Isso se deu na véspera do Natal de 1955. Mas em 1957, a Escola já estava com quatro turmas, o pavilhão ficou pequeno, e o problema agravou-se outra vez. O Diretório Acadêmico, e alguns outros acadêmicos, se movimentaram para arranjar outro lugar. Procurado para interceder no caso, o doutor Feliciano, considerado um benfeitor da Escola, embora oficialmente não seja assim reconhecido e homenageado por isso, e que era secretário de Educação do governador Juca Ludovico, sugeriu que a Escola ocupasse a antiga Penitenciária na Rua 67, no Centro que estava desocupada, mas o prédio reforçado por enormes grades, cheio de celas pequenas, era uma prisão mesmo, inadequado para escola.
             Outras opções de espaço aparecerem, como o Abrigo dos Velhos, onde está o Fórum, mas eram pavilhões muito rústicos e velhos, não era o ideal. Também foi indicado o Hospital Geral, recém construído e sem funcionar, porém tinha o parecer contrário do secretário da Saúde. Todavia, com a anuência do governador, a Escola lá foi instalada. No início de 1960, a Faculdade de Medicina requisitou o edifício, como já estava em construção o prédio da sede definitiva, para lá se transferiu a Escola, onde está até hoje.

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